{"id":6962,"date":"2020-09-10T17:25:36","date_gmt":"2020-09-10T20:25:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.telavita.com.br\/blog\/?p=6962"},"modified":"2020-09-10T17:25:55","modified_gmt":"2020-09-10T20:25:55","slug":"transfobia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.telavita.com.br\/blog\/transfobia\/","title":{"rendered":"Transfobia: uma constru\u00e7\u00e3o social e hist\u00f3rica"},"content":{"rendered":"<p>Infelizmente, ainda h\u00e1 muito o que se compreender sobre sexualidade. Sabemos que isso \u00e9 algo constru\u00eddo socialmente e tem o prop\u00f3sito de atender a uma certa conveni\u00eancia social. Por isso, devemos tentar compreend\u00ea-la sob uma perspectiva hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>O modelo de sexualidade considerado saud\u00e1vel foi estabelecido na Idade Moderna com a estrutura\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia nuclear burguesa. Antes disso, as religi\u00f5es j\u00e1 padronizavam o que era considerado pecado no campo sexual. Dessa forma, todo o sexo que n\u00e3o visasse a procria\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia heteronormativa, cisg\u00eanera e monog\u00e2mica era considerado pecado, crime e doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Sendo assim, os \u00fanicos g\u00eaneros que o sistema admite sem preconceitos \u00e9 o g\u00eanero masculino no corpo do macho (homem) e o g\u00eanero feminino no corpo da f\u00eamea (mulher). Al\u00e9m do mais, como g\u00eanero \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social e hist\u00f3rica, ele varia conforme a \u00e9poca e o local em quest\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>LEIA MAIS: <a href=\"https:\/\/www.telavita.com.br\/blog\/diferenca-biologico-orientacao-sexual-e-genero\/\">Diferen\u00e7a entre sexo biol\u00f3gico, orienta\u00e7\u00e3o sexual, identidade de g\u00eanero e sexualidade<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, por exemplo, o que \u00e9 considerado homem, macho, masculino em uma sociedade da Nova Guin\u00e9, em 1850, \u00e9 diferente daquilo entendido nos EUA em pleno ano de 1950. \u00c9 evidente que existe uma press\u00e3o econ\u00f4mica e social para que haja uma padroniza\u00e7\u00e3o nazista \u2013 fascista \u2013 totalit\u00e1ria. Afinal, quanto maiores forem a aliena\u00e7\u00e3o e massifica\u00e7\u00e3o, maiores ser\u00e3o o controle e poder.<\/p>\n<p>Entretanto, h\u00e1 pessoas que nascem e n\u00e3o se identificam com o g\u00eanero que a sociedade as imp\u00f5e, independentemente do \u00f3rg\u00e3o sexual que possuem. As normas de g\u00eanero violentam. Nesse sentido, elas existem para organizar o funcionamento social, que est\u00e1 voltado a determinada conven\u00e7\u00e3o e submisso a certo sistema social, religioso, financeiro e pol\u00edtico. A transfobia aparece.<\/p>\n<h2>Transfobia durante a jornada de vida<\/h2>\n<p>Aquelas pessoas que n\u00e3o se adequam a tais normas de g\u00eanero, s\u00e3o chamadas de transexuais, travestis, transg\u00eaneras, n\u00e3o bin\u00e1rias, g\u00eanero flu\u00eddo, ag\u00eaneras, big\u00eaneras, interg\u00eaneras, polig\u00eaneras, andr\u00f3ginas, etc.<\/p>\n<p>No entanto, esses indiv\u00edduos, por diversas vezes, acabam sofrendo preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o em raz\u00e3o da sua identidade de g\u00eanero. Sendo assim, o termo &#8220;transfobia&#8221; foi cunhado para tratar dos casos de medo, desprezo, avers\u00e3o e agress\u00e3o contra essas pessoas.<\/p>\n<p>Dessa forma, para compreendermos melhor como o preconceito est\u00e1 enraizado na sociedade e a forma como influencia a vida trans, iremos\u00a0tra\u00e7ar uma jornada da vida desses indiv\u00edduos.<\/p>\n<h3>Um come\u00e7o complicado<\/h3>\n<p>Pois bem, come\u00e7amos tudo com uma crian\u00e7a que n\u00e3o se identifica com o g\u00eanero imposto e conveniente com seu sexo biol\u00f3gico, por\u00e9m, logo cedo ela j\u00e1 come\u00e7a a sofrer hostiliza\u00e7\u00e3o. A maior parte n\u00e3o vive nos grandes centros e mora no interior do nosso imenso pa\u00eds, onde o contato com a diversidade \u00e9 bem menor. Sendo assim, muitas vezes, os parentes incorrem na discrimina\u00e7\u00e3o, principalmente, naquelas fam\u00edlias que s\u00e3o muito religiosas e tradicionais.<\/p>\n<p>Na escola, essas crian\u00e7as sofrem bullying. Dessa forma, n\u00e3o conseguem estudar e deixam de frequentar as aulas por medo de serem agredidas pelos colegas. Por\u00e9m, em diversas ocasi\u00f5es, a pr\u00f3pria equipe pedag\u00f3gica tamb\u00e9m cai em transfobia.<\/p>\n<p>Nesse sentido, outra quest\u00e3o de debate interno ocorre quando come\u00e7am a crescer. Isso ocorre, pois, precisam lutar contra as caracter\u00edsticas f\u00edsicas sexuais que v\u00e3o surgindo por conta dos horm\u00f4nios. Fora isso, est\u00e3o em constante batalha para n\u00e3o aceitar o g\u00eanero que lhes \u00e9 imposto por toda sociedade.<\/p>\n<p><strong>LEIA MAIS: <a href=\"https:\/\/www.telavita.com.br\/blog\/homofobia-internalizada\/\">Homofobia internalizada: o preconceito do homossexual contra si mesmo<\/a><\/strong><\/p>\n<p>A essa altura, a briga dentro da fam\u00edlia, muitas vezes, j\u00e1 est\u00e1 instaurada. H\u00e1 diversas hist\u00f3rias de viol\u00eancias familiares contra pessoas trans e n\u00e3o bin\u00e1rias. Na adolesc\u00eancia, alguns s\u00e3o expulsos de casa ou simplesmente saem, pois n\u00e3o aguentam a press\u00e3o e a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 tamb\u00e9m vasto hist\u00f3rico de abuso infantil dos pr\u00f3prios familiares. Isso precisa ser dito, pois a sociedade acredita que o g\u00eanero e a orienta\u00e7\u00e3o afetivo sexual s\u00e3o necessariamente \u201calterados\u201d por causa de abuso sexual sofrido na inf\u00e2ncia. Puro mito. Tal assunto \u00e9 muito complexo para ser explicado de forma t\u00e3o simplista e reducionista.<\/p>\n<h3>A luta pela sobreviv\u00eancia<\/h3>\n<p>Sem estudo e qualifica\u00e7\u00e3o, grande parte das pessoas trans migram para cidades maiores e buscam se \u201chormonizar\u201d de forma clandestina. Entretanto, n\u00e3o encontram equipamentos de sa\u00fade devidamente qualificados e em quantidade suficiente para que possam oferecer tal servi\u00e7o de forma segura e digna. A transfobia impera inclusive nos poucos locais que existem.<\/p>\n<p>Sendo assim, como as pessoas trans n\u00e3o possuem qualifica\u00e7\u00e3o nenhuma para o mercado formal de trabalho, a prostitui\u00e7\u00e3o acaba sendo um caminho escolhido, por\u00e9m, ela nem ao menos \u00e9 reconhecida como profiss\u00e3o &#8211; ela n\u00e3o \u00e9 protegida por direitos e muito menos deveres regulamentados por leis.<\/p>\n<p>Logo, tal atividade laboral acaba sendo marginalizada pela sociedade. Entretanto, o problema n\u00e3o \u00e9 a prostitui\u00e7\u00e3o em si. O grande problema \u00e9 ela ser discriminada e ser a \u00fanica op\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel: a pessoa \u00e9 obrigada a vender o pr\u00f3prio corpo para conseguir sobreviver.<\/p>\n<h3>Viol\u00eancias e invisibilidade<\/h3>\n<p>As drogas e o crime est\u00e3o presentes em muitos segmentos sociais, por\u00e9m, no mundo da prostitui\u00e7\u00e3o eles s\u00e3o bem frequentes. Ent\u00e3o, s\u00e3o diversos os componentes desse contexto: a vida noturna, falta de dinheiro, marginalidade, submundo, viol\u00eancia, ter que recorrer ao tr\u00e1fico de drogas, furtos, outros crimes, sexo desprotegido, etc. Tudo isso acaba fazendo parte da sobreviv\u00eancia de v\u00e1rias pessoas trans em nossa sociedade hostil e excludente.<\/p>\n<p>Em tal \u201cmundo discriminado\u201d, pessoas trans sofrem mais viol\u00eancia ainda ap\u00f3s usufru\u00edrem de seus servi\u00e7os sexuais, afinal, muitos clientes transf\u00f3bicos as agridem. O Brasil \u00e9 ao mesmo tempo o pa\u00eds que mais consome pornografia relacionada \u00e0s pessoas trans e travestis e o pa\u00eds que mais mata essa popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>LEIA MAIS: <a href=\"https:\/\/www.telavita.com.br\/blog\/bissexualidade\/\">Bissexualidade: difus\u00e3o e preconceitos<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Os homens transexuais passam pelo mesmo problema. Eles s\u00e3o mais invis\u00edveis que as mulheres trans, pois tamb\u00e9m s\u00e3o atravessados por quest\u00f5es como o machismo, misoginia e transfobia. Isso sem falar nas pessoas n\u00e3o bin\u00e1rias e de g\u00eanero flu\u00eddo. Essas pouco aparecem para contar suas hist\u00f3rias, tamanho o preconceito social.<\/p>\n<p>Para aguentar tamanha invisibilidade e viol\u00eancias sociais, muitas pessoas trans e n\u00e3o bin\u00e1rias recorrem ao uso abusivo de drogas. Outros acabam desenvolvendo doen\u00e7as psiqui\u00e1tricas s\u00e9rias que podem lev\u00e1-las a automutila\u00e7\u00e3o e ao suic\u00eddio. Outras tantas vivem em condi\u00e7\u00f5es horr\u00edveis, se \u201chormonizam\u201d clandestinamente e s\u00e3o \u201cescravizadas\u201d por outras pessoas trans (cafetinagem) em troca de certa \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d e moradia.<\/p>\n<h2>Mudan\u00e7as ainda n\u00e3o suficientes<\/h2>\n<p>\u00c9 verdade que a situa\u00e7\u00e3o das pessoas trans, travestis e n\u00e3o bin\u00e1rias vem mudando um pouquinho no nosso pa\u00eds. O nome social j\u00e1 pode ser usado em v\u00e1rios locais sociais, por exemplo. Mas isso ainda \u00e9 s\u00f3 o come\u00e7o. A transfobia ainda \u00e9 recorrente.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso investir em educa\u00e7\u00e3o dessa popula\u00e7\u00e3o e da sociedade em geral. Algumas leis j\u00e1 protegem a popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+ em determinados aspectos. Entretanto, de maneira ampla, ainda n\u00e3o h\u00e1 qualifica\u00e7\u00e3o educacional e profissional descente em rela\u00e7\u00e3o popula\u00e7\u00e3o trans, muito menos acesso ao mercado formal de trabalho, assist\u00eancia digna de sa\u00fade, respeito em \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e outros segmentos da sociedade.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso fazer urgentemente um trabalho gigantesco de educa\u00e7\u00e3o de base nesse pa\u00eds que envolve: psicologia, sociologia, hist\u00f3ria, filosofia, sexualidade, intelig\u00eancia emocional e respeito aos direitos humanos.<\/p>\n<p>A prostitui\u00e7\u00e3o precisa ser regulamentada como profiss\u00e3o. Ela precisa ser uma op\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a \u00fanica alternativa de trabalho para esse segmento social. Deve ter direitos e deveres assegurados, garantia de aposentadoria e preparo digno para a velhice. Infelizmente no Brasil, a expectativa de vida de uma pessoa trans \u00e9 de apenas trinta e poucos anos.<\/p>\n<p><strong>LEIA MAIS: <a href=\"https:\/\/tede2.pucsp.br\/handle\/handle\/12364\">Travestis envelhecem?<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Infelizmente, ainda h\u00e1 muito o que se compreender sobre sexualidade. Sabemos que isso \u00e9 algo constru\u00eddo socialmente e tem o prop\u00f3sito de atender a uma certa conveni\u00eancia social. Por isso, devemos tentar compreend\u00ea-la sob uma perspectiva hist\u00f3rica. O modelo de sexualidade considerado saud\u00e1vel foi estabelecido na Idade Moderna com a estrutura\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia nuclear burguesa. 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Logo em seguida fiz cursos na \u00e1rea cl\u00ednica em Gestalt-Terapia e Psicoterapia Existencial. Dediquei-me tamb\u00e9m aos estudos de mestrado e doutorado voltados a Psicologia Social, Sexualidade e Envelhecimento. Al\u00e9m disso, sou plantonista volunt\u00e1rio do Centro de Valoriza\u00e7\u00e3o da Vida (CVV) desde 1998, prestando apoio emocional, ps\u00edquico e preven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio. \u00c9 importante mencionar que atuei cinco anos como Psic\u00f3logo Cl\u00ednico no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Cl\u00ednicas da USP. Quando solicitado, palestro em escolas, ONGs, etc. Em 2013 lancei o livro \"Travestis Envelhecem?\" e em 2017 o meu segundo, intitulado \"Homofobia Internalizada: o preconceito do homossexual contra si mesmo\" ambos pela editora Annablume. Atuo como Psic\u00f3logo volunt\u00e1rio em uma ONG que presta amparo ao LGBTQIAP + idoso dentre outras. Tamb\u00e9m leciono no Centro Universit\u00e1rio S\u00e3o Roque. 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