De Narciso à Dorian Gray: Um mergulho no narcisismo

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complexo narcisista

Freud explica o transtorno de personalidade narcisista, ou narcisismo, e listamos alguns dos sintomas mais comuns.

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Capturar os detalhes do real, aguçar a imaginação e imortalizar, esse é o poder da arte. No prefácio de um dos maiores clássicos da literatura, “O Retrato de Dorian Gray”, o escritor irlandês Oscar Wilde enfatiza que “o artista é o criador de coisas belas”. É compreensível que assim tenha pensado, já que a sua obra reflete inteiramente o elo entre a arte, o belo e o imortal.

O personagem central dessa história é Dorian Gray, um jovem cuja beleza extraordinária despertou o interesse do pintor Basil Hallward, que conseguiu eternizar em um retrato os  “lábios escarlate finamente modelados, francos olhos azuis e vivos cabelos dourados” de seu modelo perfeito. Para o artista, Dorian é o ideal de beleza. O curioso é que o próprio Dorian criou forte fascínio pelo próprio retrato, ou seja, por sua imagem.

– Eu ficarei velho, aniquilado, hediondo!… Esta pintura continuará sempre fresca. Nunca será vista mais velha do que hoje, neste dia de junho… Ah! se fosse possível mudar os destinos; se fosse eu quem devesse conservar-me novo e se essa pintura pudesse envelhecer! Por isto eu daria tudo!… Nada há no mundo que eu não desse… Até minha alma!…

Dorian queria ter o que só a arte consegue: imortalizar a beleza. A fixação pela própria imagem o fez abrir mão de tudo – do amor, da amizade e de seus próprios valores – em troca do ideal de que sua imagem deveria ser sempre tão bela quanto o próprio retrato, este que tanto amava. Dorian Grey reflete bem o significado de narcisista, descrito no dicionário Michaelis como alguém que possui “paixão pelo próprio ego; autoadmiração”. Na psicologia, narcisismo é considerado um transtorno de personalidade. E do que se trata, afinal, essa síndrome narcisista?

Transtorno de Personalidade Narcisista

Na psicologia, o transtorno de personalidade narcisista é definido como “um padrão generalizado de grandiosidade, necessidade de adulação e falta de empatia”, segundo o Manual MSD. Ao contrário do que muita gente pensa, pessoas com o perfil narcisista não possuem uma autoestima elevada sempre. Eles dependem dos elogios e louvações para conseguirem regular seu amor próprio.

Uma das grandes dificuldades de convivência com os narcisistas é a tendência em desvalorizar e humilhar outras pessoas para elevarem a si mesmos. Muitos agem com agressividade quando não conseguem a adulação precisa ou quando se sentem inferiores. Esse transtorno engloba 0,5% da população em geral e é mais comum em homens do que em mulheres.

A comorbidade, ou seja, presença de outros transtornos simultaneamente ao TPN, é comum, principalmente nos casos com depressão,  anorexia nervosa, transtorno de abuso de drogas ou outro transtorno de personalidade (histriônico, borderline, paranoico).

Por não haver tantas pesquisas acerca dos fatores biológicos existentes nas causas do transtorno, há um consenso de que um componente hereditário significativo seja um dos elementos causadores da TPN. Pais que adulam excessivamente os filhos por meio de elogios ou críticas excessivas, podem contribuir para o aparecimento do transtorno. “Alguns pacientes com esse transtorno têm dons ou talentos especiais e tornam-se acostumados a associar sua autoimagem e senso do eu à admiração e estima dos outros”, aponta o MSD.

Porém, é preciso tomar cuidado para não confundir amor próprio com narcisismo.

Leia também em nosso blog sobre os principais sinais do narcisismo.

O mito do narcisismo

Assim como na literatura, o mito de Narciso também embeleza canções. Em “Sampa”, o ícone da MPB, Caetano Veloso, compôs  “É que Narciso acha feio o que não é espelho”. Mas quem é esse tal Narciso cujo mito serviu de reflexo para tantas obras e inspirou o nome do transtorno, na psicologia?

A mitologia grega guarda as mais fabulosas e belas histórias e a de Narciso não seria diferente. Quando nasceu o filho do deus do rio Cefiso e da ninfa Liríope, o oráculo Tirésias alertou que a criança de nome Narciso teria uma longa vida, desde que nunca visse seu próprio rosto. Já adulto e dotado de grande beleza, o jovem Narciso despertava amor por onde passava, porém seu orgulho e arrogância afastavam e menosprezavam todos os pretendentes.

Uma dessas a se apaixonar por Narciso foi a ninfa Eco, que, ao ser desprezada, rogou à deusa Némesis uma lição ao rapaz.  Ela condenou Narciso a se apaixonar pelo próprio reflexo na lagoa de Eco e, fascinado pela sua própria beleza, deitou-se no leito do rio  e definhou. Outra versão do mito nos conta que, ao apaixonar-se pela própria imagem, se lançou nas águas em busca desse amor e morreu afogado.

Narcisismo e Freud

O narcisismo na psicologia teve o pai da psicanálise como precursor. Sigmund Freud introduziu o termo narcisismo no discurso psicanalítico, em 1910, acerca da sexualidade e da homossexualidade “ Tratava-se, na verdade, de uma nota de rodapé acrescida naquele ano aos seus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, na qual se encontra dito que eles “partem de uma base narcísica e procuram um rapaz que se pareça com eles próprios e a quem eles possam amar como eram amados por sua mãe” (FREUD, 1905/1972, p.145-146).

Anos mais tarde, o psicanalista aponta que o narcisismo é um estágio comum no desenvolvimento sexual humano. Na infância, há uma fase nomeada por Freud de narcisismo primário, que é a fase em que os primeiros desejos libidinosos ocorrem e são satisfeitos pelo indivíduo no próprio corpo.

A segunda fase dá quando o indivíduo se dá conta de que existem outras fontes de interesse e satisfação. “É dessa forma, pois, que a criança entra no segundo estágio de narcisismo, ao qual Freud denominou de narcisismo do ego ou narcisismo secundário, porque foi retirado dos objetos a partir dos processos de identificação com as figuras parentais ou seus representantes”, explica Maria das Graças Araújo, do Círculo Brasileiro de Psicanálise.

Para Freud, “tudo o que uma pessoa possui ou realiza, todo remanescente de sentimento prematuro de onipotência que sua experiência tenha confirmado, ajuda-a a aumentar a sua autoestima” (1914/1974, p.115). Ou seja, a autoestima depende de três aspectos principais, segundo o psicanalista: “ O primeiro deles é o resíduo mesmo do narcisismo infantil, o segundo decorre das realizações do ideal do ego que corroboram a onipotência infantil, e o terceiro provém da satisfação da libido objetal, ou seja, de relações amorosas satisfatórias”, escreveu Araújo.

Sintomas de narcisismo

O Manual MSD listou alguns dos principais sintomas do transtorno de personalidade narcisista:

  • Uma sensação exagerada e infundada da sua própria importância e talentos (grandiosidade);
  • Preocupação com fantasias de realizações ilimitadas, influência, poder, inteligência, beleza ou amor perfeito;
  • Convicção de que eles são especiais e únicos e devem associar-se apenas com pessoas do mais alto calibre;
  • Necessidade de ser incondicionalmente admirado;
  • Uma sensação de merecimento;
  • Exploração dos outros para alcançar objetivos próprios;
  • Falta de empatia;
  • Inveja dos outros e convicção de que outros os invejam;
  • Arrogância e altivez.

Tratamento do transtorno de personalidade narcisista

A psicoterapia é o tratamento mais indicado para esse tipo de transtorno. A abordagem cognitiva-comportamental é uma delas, já que permite a participação ativa do paciente no seu próprio tratamento através de técnicas guiadas pelo psicólogo que transformam o pensamento e, por vez, refletem no comportamento.

O Manual MSD também sugere a psicoterapia psicodinâmica como fonte de tratamento pois “focaliza os conflitos subjacentes”.

Assim como Narciso, Dorian Gray também mergulhou para dentro do próprio ego e se perdeu. Com orientação e acompanhamento psicológico, o transtorno de personalidade narcisista pode ser controlado, tornando o reflexo do paciente uma imagem mais acolhedora e amiga.

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