Narcisismo e poder

narcisismo

Do alto do Olimpo, a deusa Nêmesis condenou Narciso, uma pessoa de extrema beleza, a apaixonar-se pela própria imagem. Certo dia, cansado após um penoso dia de caça, ele debruçou-se sobre um lago para tomar água e viu o seu reflexo espelhado. O resultado: ficou apaixonado no mesmo instante.

Narciso, então, passou o resto de seus dias admirando a própria imagem refletida. Sem comer e sem beber, ele definhou até morrer. As ninfas choraram seu triste destino e no lugar onde ele faleceu nasceu uma bela flor, que em sua memória foi chamada de narciso.

Esse conto da mitologia grega ajuda a compreender a extensão do amor próprio e a vaidade. Porém, ele também é importante, pois serve como ponto de partida para diversas questões psicológicas e até de poder.

O que é narcisismo?

Na psicologia, o narcisismo é um transtorno de personalidade. As principais características desse distúrbio são: padrão invasivo de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia.

Os narcisistas acreditam que são únicos e especiais, mas acabam sendo arrogantes, prepotentes e competitivos. Limitam-se ao que fazem e pensam e, por isso, a maioria das pessoas significa pouco para eles. A avidez por admiração os leva a crer que tudo na vida é excepcional.

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Sendo assim, são pessoas que superestimam suas capacidades e exageram suas realizações. Os narcisistas, geralmente, compensam a dor e a frustração desenvolvendo vícios e compulsões. Esse movimento ocorre porque querem que o sentimento de euforia aplaque o mal estar.

O indivíduo narcisista tem postura ereta, constituição física de atleta e feições rígidas. Costuma ser autoconfiante, enérgico e agressivo. O autoritarismo é também uma característica presente.

As relações sociais dos narcisistas

Nas relações sociais e pessoais dos narcisistas impera a inveja. Isso ocorre tanto pelo que sentem pelas conquistas alheias, como por aquelas que acreditam que os outros tem por suas conquistas.

Dessa forma, não são bons companheiros, pois sua falta de receptividade os torna incapazes de ajudar os outros. Além disso, ajudam o próximo somente para obter aplausos e notoriedade.

As pessoas narcisistas costumam mentir. Nesse sentido, falam de coisas distantes e difíceis de comprovar e acreditam nisso ferrenhamente. Então, exageram e rentabilizam o que é bom, pois no mundo narcisista o fracasso é sempre algo pertencente aos outros ou ao mundo exterior.

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Ainda, atuam como se fossem o centro da gravidade. Não se colocam no lugar do outro e falam muito, sempre mudando de assunto e menosprezando os demais. Essas estratégias são empregadas principalmente para esconder suas emoções e fragilidades.

Inclusive, as redes sociais são um campo perfeito para os narcisistas. Entretanto, elas são utilizadas somente até o ponto em que eles podem se sentir intensificados, pois, após isso, eles saem das redes, já que não podem controlar esse ambiente. Os narcisistas se aproveitam muito dos outros, principalmente das pessoas bem posicionadas.

Aspectos psicológicos do narcisismo

Quem sofre desse comportamento não nasceu assim. Aliás, quem tem esse distúrbio, geralmente, carrega na sua vida pessoal a dor de não ter sido adequadamente amado quando criança.

A partir disso, desenvolvem uma frieza emocional nos relacionamentos interpessoais como forma de defesa para nunca mais sentirem a decepção experimentada quando criança. Sendo assim, quando conseguem chegar no consultório de um psicólogo, apresentam distúrbios e transtornos afetivos, ansiedade e depressão.

Nesse sentido, quando aceitam ir à terapia, a primeira premissa que eles colocam é que o profissional que vai atendê-lo esteja a sua altura. Para o narcisista, o psicólogo precisa ser reconhecido e ter prestígio, além de ser altamente qualificado e capacitado.

O narcisismo e o poder

Narcisismo e poder estão intrinsecamente conectados. Aliás, tudo o que está ligado a busca do poder é, do ponto de vista caracterológico energético, uma condição narcisista. Inclusive, isto pode ser visto nas guerras e na política.

Nos dias atuais, nos deparamos com um culto ao narcisismo e o seu objetivo é o engrandecimento do próprio ego. Assim, na medida em que essas pessoas cultivam a própria imagem, elas criam um endeusamento e engrandecimento pelo poder. Dessa forma, vivenciamos uma busca intensa por situações em que exercemos cada vez mais esse poder.

Um dos principais precursores dessa questão é a mídia, que bombardeia constantemente imagens de sucesso, beleza e fama. Ela mostra o “Olimpo” e promete acesso a essa consagração, como no caso de jogadores, artistas e políticos.

Porém, o que acontece quando o narcisista tem sua vaidade ferida? O que ocorre quando esse poder não acontece? Bem, algumas pessoas criam verdadeiras explosões de ira e agressividade, síndrome do pânico, toxicomanias e outras situações decorrentes da frustração narcísica.

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Quando isso ocorre, o narcisista se sente ofendido, reage com frieza, sadismo e agressividade. Essas pessoas não toleram a ideia de fracasso, então, ficam enfurecidas ou deprimidas. Dessa forma, também passam a agir, na maioria das vezes, com “barganha demagógica” para amenizar os ataques contra ele.

Certos aspectos e traços narcisistas podem ser encontrados em todas as pessoas, variando o grau e o nível em que isso se desenvolve. É exatamente esse grau (a mais ou a menos) que estabelece a diferença em um narcisista e um psicopata.

Os narcisistas são pessoas que cotidianamente buscam o poder ultrapassando qualquer limite, seja ele moral, ético, físico ou psicológico. Estamos falando de indivíduos que não conseguem viver sem plateia ou sem elogios constantes.

Para o narcisista, a determinação em vencer está mais baseada no medo do fracasso do que na recompensa. Ele precisa de espaço para aparecer e não irá poupar esforços para derrubar quem estiver na sua frente.

A origem do poder

A palavra poder vem do latim “potere” e seu significado nos remete a capacidade de fazer algo, bem como a posse de mando e da imposição da vontade. Poder, então, é uma força que permeia as relações sociais desde o início da sociedade humana.

Dessa forma, devemos compreender a sociedade como um complexo de micro relações de poderes disciplinares, que visam controlar as pessoas via imposição da disciplina. Sendo assim, isso pode ou não ter aceitação com força de ordem.

O poder está ligado aos conflitos de interesse que são inerentes e inevitáveis ao ser humano. As relações de poder são definidas por posições de autoridade, pois poder e autoridade caminham juntos.

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O poder pode ser econômico, ideológico, político ou social. Ele é sempre permeado pela capacidade de conseguir algo, seja por direito, por controle ou por influência. O poder mobiliza um resultado.

A sociedade moderna e contemporânea está vivendo hoje uma nova forma de poder: o biopoder. Nesse sentido, possui foco na preservação da vida, ou seja, entre o fazer viver e deixar morrer. Essa nova forma de poder estabelece uma relação de dependência entre indivíduos ou grupos em relação aos outros.

Hoje vivemos num momento histórico global em que a atitude de um interfere na coletividade. O medo impera. Então, devemos refletir sobre como podemos impedir que a fogueira de vaidades, marcadamente narcísica, exerça um poder destrutivo na sociedade.

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Psicóloga Sonia Pittigliani - CRP 06/14188
Psicóloga formada em 1982, me especializei em Psicoterapia Breve e Psicologia Hospitalar, tendo feito mestrado em Psicologia da Saúde. Toda minha vida profissional foi fundamentada numa postura ética humana, tendo trabalhado como psicoterapeuta (analítica dinâmica) em meu consultório, psicologia oncológica e psicologia hospitalar (UTI de adultos - politrauma, cardiologia e neurologia), sala de Emergência (atendendo tentativas de suicídio por intoxicação e dependência química) e também atuado como professora de Psicologia Educacional, em escolas estaduais no início de carreira, nas Faculdades Oswaldo Cruz (curso de especialização em Oncologia) e na UNICID (matéria de toxicologia clínica na Faculdade de Medicina e Psicologia Forense na Faculdade de Direito). No hospital fui Chefe da clínica de Psicologia Hospitalar (por três anos) e na clínica de oncologia coordenei a equipe multiprofissional. Atualmente atendo clinicamente, e desenvolvo um trabalho de mentoria. Agende uma consulta comigo aqui: https://www.telavita.com.br/app/psicologia-online/sonia-maria-campos-pittigliani

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