A relação de Alice no País das Maravilhas e o funcionamento do cérebro

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Alice e o cérebro

Um coelho branco vestindo colete com um relógio de bolso, um gato que desaparece no ar e uma rainha vermelha com um louco desejo por cortar cabeças. É tudo assim, de cabeça para baixo, no País das Maravilhas, o mundo que mexe com o imaginário popular desde a publicação do livro “Alice no País das Maravilhas”, escrito pelo autor inglês Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dogson, publicado em 1865.

Alice: Chapeleiro, você me acha louca?
Chapeleiro: Louca, louquinha! Mas vou te contar um segredo: as melhores pessoas são.”

O diálogo entre Alice e o Chapeleiro Maluco, os personagens de “Alice no País das Maravilhas” mais icônicos da obra, aparece na adaptação dos livros para as telonas. O  filme, dirigido pelo excêntrico Tim Burton, capta bem o espectro do surreal em que as personagens estão inseridas, pois tudo no País das Maravilhas é um tanto doido mesmo.

Um século e meio desde sua publicação, a obra se tornou um clássico da literatura e agora inspira pesquisadores neurocientistas a contarem o que ela pode nos ensinar sobre o cérebro humano. Alison Gopnik, professora de psicologia na Universidade da Califórnia, Berkeley, afirma que Carroll explorou inúmeras possibilidades sobre a continuidade do self. O termo “self”, ou “si mesmo”, foi muito popular nas teorias de Carl Gustav Jung, célebre psiquiatra suíço. Para ele, self é a totalidade do homem, uma imagem arquetípica do potencial mais pleno dele.

autor de “Alice no País das Maravilhas” tratou da memória, linguagem, consciência, inconsciência e sonho, temas que pertencem à base de estudos da psicologia. Ele foi tão conciso nas suas descrições, que Alice ganhou até síndrome com o seu nome!

Síndrome da Alice no País das Maravilhas

“Que sensação estranha!” disse Alice; “devo estar encolhendo como um telescópio!”. E estava mesmo: agora só tinha vinte e cinco centímetros de altura e seu rosto se iluminou à ideia de que chegara ao tamanho certo para passar pela portinha e chegar àquele jardim encantador.”

Assim que se aventurou pelo buraco do coelho e caiu, caiu, caiu, até chegar a um estranho lugar cercado por portas de todos os tamanhos, Alice encontrou um pequeno frasco com os dizeres “Beba-me”. O efeito da poção é descrito acima e encolhe a nossa personagem feito um telescópio! O efeito oposto se encontra no bolinho que continha os dizeres “Coma-me”, e Alice cresceu, “espichando como o maior telescópio que já existiu!” (Carroll).

A memorável cena não passou despercebida pelo psiquiatra inglês – e fã das obras de Carroll –  John Todd. Em 1955, ele observou que alguns pacientes relatavam o mesmo sentimento de Alice e cunhou o termo da doença chamada Síndrome da Alice no País das Maravilhas. O neurologista da Universidade da Pensilvânia, Filadélfia, Grant Liu, estudou o fenômeno: “Eu ouvi pacientes dizendo que as coisas apareciam de cabeça para baixo, ou que a mãe estava do outro lado da sala e, do nada, aparecia do seu lado”, relatou ele.

Sabe-se que a doença é mais comum em crianças, pessoas que sofrem de enxaqueca e/ou que estão sob efeitos de drogas, como o LSD. Carroll relatou em seus diários as intensas crises de enxaqueca que sofria, o que faz com que os cientistas acreditem que o autor tenha usado suas próprias experiências com a doença como inspiração. Para Liu, os lobos parietais, responsáveis pela percepção espacial do corpo, podem ser afetados pela síndrome, criando uma anormalidade nas suas funções e fazendo com que o sentido de perspectiva e distância fiquem distorcidos.

Embora pareça grave, essas ilusões são passageiras e inofensivas e o trabalho de Liu é levar informação aos pacientes que pensam estarem loucos. 

Dos sonhos mais loucos 

Você já teve um sonho bem doido, em que pessoas ganhavam características animalescas e se comportavam de forma estranha? Pois no sonho de Alice com o País das Maravilhas, os sonhos operam dessa forma.

Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise, afirma que a censura, nos sonhos, opera nos sistemas inconsciente e pré-consciente, ou seja, um fragmento não é distorcido ao acaso.

“Não se devem assemelhar os sonhos aos sons desregulados que saem de um instrumento musical atingido pelo golpe de alguma força externa, e não tocado pela mão de um instrumentista; eles não são destituídos de sentido, não são absurdos; não… implicam que uma parcela de nossa reserva de representações esteja adormecida enquanto outra começa a despertar. Pelo contrário, são fenômenos psíquicos de inteira validade – realizações de desejos; podem ser inseridos na cadeia dos atos mentais inteligíveis da vigília; são produzidos por uma atividade mental altamente complexa”. (Freud, Ed.Imago, 2001, p.136)

Para ele, a mente adormecida reflete os nossos maiores desejos e se funde com episódios que a nossa mente absorve quando estamos acordados e conscientes. O País das Maravilhas está recheado de personagens que se metamorfoseiam, como a Duquesa e o seu bebê chorão. Ao segurar o bebê no colo, Alice nota que o nariz do bebê se torna mais arrebitado; seus olhos ficam mais próximos um do outro, e ele começa a grunhir. De repente, o bebê se transforma em um porco.

Alice sonhou com a cena, mas no seu estado consciente, sua mente absorveu informações e episódios reais que se fundiram ao imaginário, fixando-as na memória. Neurocientistas explicam que, uma vez que consolida as lembranças, a mente desenha ligações entre diferentes eventos para construir a uma história. Disso, informações são cruzadas e misturadas a ponto de criarem os sonhos mais loucos. 

A Rainha Branca e a viagem no tempo

“…mas há uma grande vantagem nisso: a nossa memória funciona nos dois sentidos.”
“Tenho certeza de que a minha memória só funciona em um”, Alice observou. “Não posso lembrar coisas antes que elas aconteçam.”
“É uma mísera memória, essa sua, que só funciona para trás”, a Rainha observou.”
“De que tipo de coisas você se lembra melhor?” Alice se atreveu a perguntar.
“Oh, das coisas que aconteceram daqui a duas semanas”, a Rainha respondeu num tom displicente. “Por exemplo, agora”.

Carroll, Lewis

A memória é o centro da conversa entre Alice, que diz possuir apenas um sentido de memória (o do passado) e a Rainha Branca, que afirma possuir mais sentidos, como o do futuro, em que já havia se lembrado do exato momento em que conversavam. Mas que maluquice é essa? Memórias do futuro?

A neurocientista irlandesa, Eleanor Maguire, da University College London explica: “Uma vez que os neurocientistas em meados dos anos 2000 começaram a descobrir que a memória não está relacionada somente com o passado, mas, principalmente, na utilidade que ela tem para ajudar a resolver problemas futuros. Você precisa se projetar para a frente para trabalhar melhor o curso de ação.”

A visionária Rainha Branca já antecipava estudos sobre o hipocampo e a relação entre memórias do passado e do futuro. Ao imaginarmos o futuro, coletamos nossas lembranças do passado e as unimos com informações do presente e futuro para formar o novo cenário. Maguire estudou pacientes com danos no hipocampo, estrutura cerebral cuja função é converter a memória a curto prazo em memória a longo prazo. Em sua pesquisa, notou que, ao mesmo tempo que os pacientes não conseguiam se recordar de memórias do passado, também mostraram o mesmo problema com relação à antecipação de fatos futuros.  “Eles sabiam que teria areia e mar, mas não conseguiam visualizar a situação em suas mentes”.

“A regra é: geleia amanhã e geleia ontem,  mas nunca geleia hoje”.
“Isso só pode acabar levando às vezes a ‘geleia hoje'”, Alice objetou.
“Não, não pode”, disse a Rainha. “É geleia no outro dia: hoje nunca é outro dia, entende?”

Carroll, Lewis

Ou seja, os pacientes da Dra. Maguire estão sempre presos no presente, pois não se lembram do passado e nem conseguem projetar o futuro, ao contrário da Rainha Branca.

Cognição do impossível

Primeiro, vamos responder uma pergunta importante: O que é cognição? Cognição é o processo de aquisição do conhecimento, e ele se dá através da percepção, da atenção, associação, memória, raciocínio, etc. Essa capacidade de processar informações e transformá-las em conhecimento é um dos processo mais importantes que ocorrem na nossa mente. Sem ele, nossa noção de mundo não seria a mesma. 

“Isto é impossível.”
“Só se você acreditar que é. Às vezes, eu acredito em s  eis coisas impossíveis antes do café da manhã.”

Carroll, Lewis

Alison Gopnik, a professora de psicologia na Universidade da Califórnia, Berkeley, já nos explicou sobre o “self” lá no comecinho do texto. Agora, ela estuda a forma como construímos nossa imaginação. Ela descobriu, por exemplo, que as crianças que brincam “acreditando no impossível” tendem a desenvolver uma cognição mais avançada. Elas desenvolvem o pensamento hipotético muito melhor do que quem não imagina tanto, além da tendência em ter uma “teoria da mente” mais avançada, ou seja,  possuem uma compreensão maior sobre os motivos e intenções dos outros.

“Muito do que elas fazem na brincadeira é formar uma hipótese e segui-la até a conclusão lógica”, diz Gopnik. “O interessante é que Carroll também era um mágico e você pode ver essa mesma capacidade quando toma uma premissa para chegar à uma conclusão absurda”.

E quem mergulha em histórias de fantasia e ficção? Também tem poderes mágicos de cognição? O pesquisador Travis Proulx, da Universidade de Tilburg, na Holanda, estudou a forma com que a literatura surreal e absurda, como a de Carroll, influencia a nossa cognição. Quando nos aventuramos com dinossauros, lutamos contra monstros ou viajamos para o País das Maravilhas, rompemos com as nossas expectativas, tornando o cérebro mais flexível e, aquele que lê, mais criativo e ágil para compreender novas ideias.

“Não tenho nenhuma dúvida de que estimular esses estados mentais contribui para o desenvolvimento da aprendizagem e origina novas conexões”, diz Proulx.

Cientificamente, nos aventurar em mundos estranhos e que parecem impossíveis, estimula – e muito – a nossa mente a ser mais ativa e criativa. Talvez Carroll, conscientemente, não tivesse pensado nos detalhes ou que a ciência poderia, um dia, explicar tão bem a sua obra. O fato é que, ao descer pela toca do Coelho, Carroll e Alice nos deram a chave para mergulhar no País das Maravilhas e, também, em nossa própria mente.

FONTE: BBC

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