Envelhecimento do casal gay e o duplo preconceito

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casal idoso e homossexual

Um novo meme tomou conta das redes: o “Privilegiado, sim”, uma série de frases compostas por situações cotidianas de quem tem algum tipo de privilégio social. O meme teve origem no áudio de uma jovem que afirma “Meu pai é, sim, empresário. Eu trabalhei, sim, com o meu pai. E se eu continuei trabalhando com ele foi porque eu mereci”. E aí a onda se espalhou. Mas a discussão que o meme trouxe é bastante importante porque quem é branco, heterossexual, homem, jovem e de classe média, raramente enxerga que é privilegiado, sim, e que as minorias, ou seja, as mulheres, os idosos, os LGBTs, os negros e tantos outros grupos, sofrem preconceito e desvantagens apenas por serem quem são.

No Brasil, ser LGBT é também conviver com o medo de morrer. Em pleno século 21, em 2019, os LGBTs ainda sentem na pele o impacto que o preconceito traz. Dados publicados pelo UOL e tabulados por Julio Pinheiro Cardia, ex-coordenador da Diretoria de Promoção dos Direitos LGBT do Ministério dos Direitos Humanos, mostram que 8.027 pessoas LGBTs foram assassinadas no Brasil entre 1963 e 2018 por conta do preconceito. Isso só mostra o quanto ainda precisamos progredir e lutar contra esse tipo de violência.

Com os idosos, o descaso e abandono é um grande problema social que enfrentamos no Brasil. A situação do desamparo familiar e abandono de idosos em asilos ou albergues públicos é preocupante e só faz crescer o número de idosos com transtornos psicológicos. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) analisou o período entre 2012 e 2017 e constatou que a população de idosos no país saltou de 25,4 milhões para mais de 30,2 milhões de pessoas. Nesse mesmo período, notou-se também que o número de homens e mulheres com 60 anos ou mais nos albergues públicos subiu 33%, de 45,8 mil para 60,8 mil.  Ou seja, tratamos mal quem nos tratou bem a vida inteira.

Lembra quando falamos de minorias e privilégios? Lembrou? Agora pense em quem é idoso e também LGBT+. Some os dados mostrados acima e tente se colocar no lugar desse(a) idoso(a) LGBT que quase sempre não encontra espaço na própria família, no círculo de amigos e até na própria comunidade LGBT.

Em pleno século 21, em 2019, os casais homoafetivos ainda sentem na pele o impacto que o preconceito traz. Andar de mãos dadas na rua, se beijar durante um jantar romântico ou abraçar quem ama: isso pode parecer simples e normal para quem vive um relacionamento heterossexual, mas para quem é LGBTQIA+ , um simples toque, um simples beijo ou um simples abraço, desperta olhares tortos, ofensas e, em muitos casos, a agressão física, como citado anteriormente no relatório de mortes por homofobia. Ou seja, o casal homoafetivo, quando envelhece, sofre todas essas barreiras com o adendo de estarem na terceira idade e serem excluídos da sociedade e, ao mesmo tempo, lembrados somente para serem hostilizados.

Assumir ou não?

A inglesa Barbara Hosking decidiu assumir a sua homossexualidade aos 91 anos de idade. A funcionária pública viveu nos tempos em que o conservadorismo e a onda do HIV tiveram o seu auge e, assim como muitas outras pessoas, ela se escondeu e viveu uma vida que não era a dela para não sofrer ainda mais.

O renomado ator inglês Sir Ian Mckellen, o eterno Gandalf da trilogia “O Senhor dos Anéis”, também demorou um tempinho para contar sobre a sua orientação sexual. Hoje, Mckellen é um dos grandes ativistas LGBT, mas só se assumiu aos 49. Em entrevista ao Huffington Post, McKellen disse: “Eu me arrependo e sempre vou me arrepender de não ter visto a importância de sair do armário antes porque eu acho que teria sido uma pessoa diferente e mais feliz. Autoconfiança é a coisa mais importante que qualquer um pode ter. Você não tem isso se parte de você está envergonhada ou escondendo algo. Eu posso assegurar às pessoas que acham que não conseguiriam se assumir de que o mundo vai gostar mais de vocês porque as pessoas gostam de honestidade e autenticidade”.

Tanto Hosking quanto Mckellen tiveram sua juventude marcada pela repressão e o medo. Não que hoje os tempos estejam áureos para os LGBT, muito pelo contrário, mas existe muito mais liberdade e leis do que nos anos 60, por exemplo. Porém, os resquícios da intolerância ainda são fortes e teimam a esmorecer.

Duplo preconceito e o impacto psicológico

O idoso que é homossexual sofre o impacto de ser minoria “duas vezes”, já que a terceira idade é vista pela sociedade como ultrapassada e incapaz de realizar funções e atividades como na juventude, e os LGBTs são vistos como imorais e antiéticos pela sociedade conservadora. Ou seja, esse idoso sofre o duplo preconceito, e sofrer preconceito pode ser devastador em diversos aspectos, seja na realização de objetivos, como não conseguir um emprego, no psicológico, como a baixa autoestima e desenvolvimento de transtornos, ou no emocional, como a solidão.

O Portal do Idoso comenta o problema: “Os homossexuais idosos de hoje internalizaram essas atitudes e crenças culturais negativas. Sofreram opressão e desvalorização de si mesmos. Isso afetou inquestionavelmente sua saúde mental. Em muitos casos, sua saúde física também foi afetada. Um estudo científico de 2008 (por Anderson, 2008) revelou que os idosos homossexuais eram mais propensos a viver sozinhos no ciclo final da vida. Eram 4 vezes menos propensos a pensar em ter filhos e menos propenso a pedir ajuda de familiares que heterossexuais da mesma idade. Outro estudo científico de 2004 (Grossman et al) evidenciou melhor qualidade de vida para os idosos homossexuais quando estes viviam com um parceiro. Contudo, os autores verificaram que apenas 29%, de um total de 416 homossexuais, viviam com um parceiro. Um número muito baixo comparado à amostra total”.

É inevitável que alguém nessa situação se sinta mal, afinal, o preconceito vem em duas vias. Ser abandonado, reprimido, hostilizado e agredido verbalmente ou fisicamente é uma realidade para essas pessoas, e isso causa sérios danos à saúde mental. A solidão é uma das grandes epidemias do século 21 e afeta pessoas de todas as idades e em diversas fases da vidas. A solidão na velhice é muito comum, pois com a aposentadoria e possível afastamento da família, os idosos acabam se desconectando do mundo que conheciam. Acontecimentos como a morte do(a) parceiro(a) ou a separação podem fazer com que esses indivíduos escolham viver na solidão. O problema também é associado a demência, mortalidade prematura e pressão sanguínea alta.

“Os heterossexuais da terceira idade estão esquecidos, abandonados, postos de lado, segregados. Mas os idosos LGBT são simplesmente invisíveis. Ninguém sabe que nós existimos. Queremos satisfazer a mais básica das necessidades: acabar com a solidão e podermos nos reunir como uma grande família”, conta Samantha Flores, de 84 anos, em entrevista ao El País. Ela é transexual, ativista e criadora do centro de convivência para idosos gays na Cidade do México.

A depressão em idosos homossexuais também pode ser comum por conta dos inúmeros traumas, tristeza, negações e violência que sofreram ao longo da vida. A depressão já atinge 400 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. Esse transtorno é caracterizado pela diminuição ou perda de interesse pelas atividades diárias, comprometendo não só a mente, mas também o corpo. Erroneamente tratada como tabu e sem a devida atenção, depressão é doença sim e precisa de tratamento.

Dentre os sintomas iniciais da depressão estão o cansaço extremo, alterações no sono, dificuldade de concentração, irritabilidade, angústia e outros fatores que alteram muito o dia-a-dia e a saúde de quem sofre com a doença. E engana-se quem pensa que depressão só atinge a cabeça, pois ela está relacionada diretamente com sintomas físicos e males que prejudicam o corpo inteiro.

Além de sofrer preconceito pela sociedade e estar entre o público de risco das doenças psicológicas, físicas e da solidão, os idosos LGBT muitas vezes não recebem apoio da família e nem da própria comunidade LGBT. Afinal, eles são idosos e o estereótipo de incapacidade perpetua na comunidade também.

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