A epidemia da solidão e a criação de um Ministério para combatê-la

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solidão ou sozinho

O jovem americano Christopher McCandless não concordava com as exigências da sociedade. Ao se ver diferente dos outros, tanto em pensamento quanto em estilo de vida, decidiu abandonar tudo o que tinha e confrontar a si mesmo numa jornada solitária e cheia de experiências. 

O livro “Na Natureza Selvagem“, escrito por  Jon Krakauer e adaptado para as telonas sob direção de Sean Penn, conta a história real desse jovem em sua viagem pelas terras estadunidenses, cujo destino era o gélido e inóspito Alaska.

“Há dois anos ele caminha pelo mundo sem telefone, piscina, carros, nem cigarros. A liberdade máxima. Um extremista. Um viajante esteta cujo lar é a estrada. E agora, depois de dois anos errando, vem a última e maior aventura. A batalha culminante para matar o falso ser interior e concluir com vitória, a revolução espiritual. Sem continuar a ser envenenado pela civilização, ele foge e caminha solitário pelo mundo para se perder em meio à natureza.”

É da natureza do ser humano viver em sociedade e ser integrado a um grupo. Isso remonta desde os primeiros passos que o homem deu na Terra: aqueles que viviam em grupo, tinham mais chances de obter caça, se esquentar nos períodos de inverno e reproduzir. A revista “Perspectives on Psychological Science publicou um estudo que levanta a hipótese da solidão ter tido um valor adaptativo para seres humanos e animais e que, assim como a fome, sede e dor, ela também pode ter a característica de alerta de reconexão com outros indivíduos a fim de aumentar nossas chances de sobrevivência e reprodução.

Mas o problema é que alguns indivíduos, por terem pensamentos e comportamentos diferentes daqueles que o grupo imprime, podem se sentir rejeitados, julgados e diferentes. Esse sentimento pode gerar uma exclusão voluntária dessas pessoas consideradas “diferentes” ou “mal compreendidas”, pelo medo da rejeição que a sociedade, munida de padrões e comportamentos previamente esperados, exige delas.

Na obra “Mal-estar na Civilização”, Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise, comenta justamente a exigência social que hostiliza e impõem normas ao indivíduo e, esse, sacrifica o seu eu a fim de construir uma vida social. Essas são uma das possíveis causas da solidão.

O que é solidão?

Vamos começar diferenciando dois conceitos importantes: estar sozinho não é a mesma coisa que sentir solidão. Às vezes ficar sozinho é se reconectar. Pessoas sozinhas ficam na companhia dos próprios sentimentos e pensamentos é saudável no sentido de conhecer a si mesmo e se fortalecer em meio à sociedade frenética por padrões e que nos bombardeia de informações e exigências o tempo todo. Tomar esse fôlego é importante para o autoconhecimento e para encarar o nosso eu interior.

A solidão, entretanto, é a desconexão, a ausência de pertencimento para com o mundo e com os outros. Pessoas solitárias não conseguem sentir identificação com o meio e com quem está ao seu redor, causando isolamento. 

Muitas vezes o isolamento abre espaço para transtornos psicológicos graves, como a depressão e a ansiedade. Foi partindo desse fato que a Inglaterra decidiu criar um Ministério da Solidão

O Ministério da Solidão

“A epidemia oculta” – é como o Reino Unido se referiu à solidão. Os números corroboram com o termo, já que mais de 9 milhões de pessoas dizem viver permanentemente ou frequentemente sozinhas, de uma população de 65,6 milhões, segundo a Cruz Vermelha Britânica.

Ela afeta pessoas de todas as idades e em diversas fases da vidas. A solidão na velhice é muito comum, pois com a aposentadoria e possível afastamento da família, os idosos acabam se desconectando do mundo que conheciam. Acontecimentos como a morte do parceiro ou a separação podem fazer com que esses indivíduos escolham viver na solidão. O problema também é associado a demência, mortalidade prematura e pressão sanguínea alta.

A primeira-ministra britânica, Theresa May, descreveu a epidemia da solidão “a triste realidade da vida moderna”, que afeta milhões de pessoas. Além das consequências físicas, a solidão causa depressão e ansiedade em muitos casos.

Tristeza e solidão não são bons aliados. Os transtornos mentais são muito comuns nas pessoas que se sentem sós e essa condição pode ser um gatilho para as crises de síndrome do pânico, ansiedade e depressão. O Reino Unido percebeu as altas taxas de doenças mentais nas pessoas que vivem na solidão  e tomou a atitude de criar um ministério dedicado a erradicar esse mal silencioso.

Como combater a solidão?

O medo da solidão é um dos pensamentos que mais assolam a mente das pessoas. O HuffPost UK listou algumas iniciativas que os governos podem aplicar para ajudar a população em como lidar com a solidão.

 Acessibilidade

A organização Sense relatou que pessoas com alguma deficiência têm mais dificuldade em fazer amizades e construir laços pois os locais públicos e privados, transportes e estrutura em geral não são pensados neles, então não têm a mesma facilidade em acessar esses lugares e, consequentemente, pessoas. 53% dos ingleses com alguma deficiência sofrem com a solidão. 

 Comunidade

Em 2017, uma pesquisa descobriu que mais de 90% das mães que passam pelo pós-parto, se sentem solitárias. 80% delas quer mais amigos, porém, 30% nunca começaram uma conversa com outra mãe que pudesse desencadear uma nova amizade. Mais de 10% de mães, ainda, disseram sofrer com a depressão pós-parto.

Terapia

Como superar a solidão? Uma das maiores aliadas dessa luta é a terapia. Solidão e psicologia, quando juntas, dão resultados positivos pois os especialistas investigam as causas da solidão e auxiliam no processo de cura das doenças mentais que podem ser causadas por ela.

Está lembrado de Chistopher Mccandless, o homem que inspirou o livro “Na Natureza Selvagem” que falamos no início do texto? Pois o personagem passou 2 anos caminhando sozinho, sem criar laços ou conviver com quem ama. A jornada, que começou com uma grande revolta perante à sociedade, terminou com uma reflexão totalmente contrária. Ele deixou uma carta com os dizeres: “A felicidade só é verdadeira quando compartilhada”. Talvez ele tenha chegado à conclusão de que ficar sozinho é diferente de sentir solidão, e sua ideia sobre o tema tenha finalmente se transformado.

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