Transfobia: uma construção social e histórica

transfobia

Infelizmente, ainda há muito o que se compreender sobre sexualidade. Sabemos que isso é algo construído socialmente e tem o propósito de atender a uma certa conveniência social. Por isso, devemos tentar compreendê-la sob uma perspectiva histórica.

O modelo de sexualidade considerado saudável foi estabelecido na Idade Moderna com a estruturação da família nuclear burguesa. Antes disso, as religiões já padronizavam o que era considerado pecado no campo sexual. Dessa forma, todo o sexo que não visasse a procriação e formação da família heteronormativa, cisgênera e monogâmica era considerado pecado, crime e doença.

Sendo assim, os únicos gêneros que o sistema admite sem preconceitos é o gênero masculino no corpo do macho (homem) e o gênero feminino no corpo da fêmea (mulher). Além do mais, como gênero é uma construção social e histórica, ele varia conforme a época e o local em questão.

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Então, por exemplo, o que é considerado homem, macho, masculino em uma sociedade da Nova Guiné, em 1850, é diferente daquilo entendido nos EUA em pleno ano de 1950. É evidente que existe uma pressão econômica e social para que haja uma padronização nazista – fascista – totalitária. Afinal, quanto maiores forem a alienação e massificação, maiores serão o controle e poder.

Entretanto, há pessoas que nascem e não se identificam com o gênero que a sociedade as impõe, independentemente do órgão sexual que possuem. As normas de gênero violentam. Nesse sentido, elas existem para organizar o funcionamento social, que está voltado a determinada convenção e submisso a certo sistema social, religioso, financeiro e político. A transfobia aparece.

Transfobia durante a jornada de vida

Aquelas pessoas que não se adequam a tais normas de gênero, são chamadas de transexuais, travestis, transgêneras, não binárias, gênero fluído, agêneras, bigêneras, intergêneras, poligêneras, andróginas, etc.

No entanto, esses indivíduos, por diversas vezes, acabam sofrendo preconceito e discriminação em razão da sua identidade de gênero. Sendo assim, o termo “transfobia” foi cunhado para tratar dos casos de medo, desprezo, aversão e agressão contra essas pessoas.

Dessa forma, para compreendermos melhor como o preconceito está enraizado na sociedade e a forma como influencia a vida trans, iremos traçar uma jornada da vida desses indivíduos.

Um começo complicado

Pois bem, começamos tudo com uma criança que não se identifica com o gênero imposto e conveniente com seu sexo biológico, porém, logo cedo ela já começa a sofrer hostilização. A maior parte não vive nos grandes centros e mora no interior do nosso imenso país, onde o contato com a diversidade é bem menor. Sendo assim, muitas vezes, os parentes incorrem na discriminação, principalmente, naquelas famílias que são muito religiosas e tradicionais.

Na escola, essas crianças sofrem bullying. Dessa forma, não conseguem estudar e deixam de frequentar as aulas por medo de serem agredidas pelos colegas. Porém, em diversas ocasiões, a própria equipe pedagógica também cai em transfobia.

Nesse sentido, outra questão de debate interno ocorre quando começam a crescer. Isso ocorre, pois, precisam lutar contra as características físicas sexuais que vão surgindo por conta dos hormônios. Fora isso, estão em constante batalha para não aceitar o gênero que lhes é imposto por toda sociedade.

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A essa altura, a briga dentro da família, muitas vezes, já está instaurada. Há diversas histórias de violências familiares contra pessoas trans e não binárias. Na adolescência, alguns são expulsos de casa ou simplesmente saem, pois não aguentam a pressão e a violência.

Além disso, há também vasto histórico de abuso infantil dos próprios familiares. Isso precisa ser dito, pois a sociedade acredita que o gênero e a orientação afetivo sexual são necessariamente “alterados” por causa de abuso sexual sofrido na infância. Puro mito. Tal assunto é muito complexo para ser explicado de forma tão simplista e reducionista.

A luta pela sobrevivência

Sem estudo e qualificação, grande parte das pessoas trans migram para cidades maiores e buscam se “hormonizar” de forma clandestina. Entretanto, não encontram equipamentos de saúde devidamente qualificados e em quantidade suficiente para que possam oferecer tal serviço de forma segura e digna. A transfobia impera inclusive nos poucos locais que existem.

Sendo assim, como as pessoas trans não possuem qualificação nenhuma para o mercado formal de trabalho, a prostituição acaba sendo um caminho escolhido, porém, ela nem ao menos é reconhecida como profissão – ela não é protegida por direitos e muito menos deveres regulamentados por leis.

Logo, tal atividade laboral acaba sendo marginalizada pela sociedade. Entretanto, o problema não é a prostituição em si. O grande problema é ela ser discriminada e ser a única opção disponível: a pessoa é obrigada a vender o próprio corpo para conseguir sobreviver.

Violências e invisibilidade

As drogas e o crime estão presentes em muitos segmentos sociais, porém, no mundo da prostituição eles são bem frequentes. Então, são diversos os componentes desse contexto: a vida noturna, falta de dinheiro, marginalidade, submundo, violência, ter que recorrer ao tráfico de drogas, furtos, outros crimes, sexo desprotegido, etc. Tudo isso acaba fazendo parte da sobrevivência de várias pessoas trans em nossa sociedade hostil e excludente.

Em tal “mundo discriminado”, pessoas trans sofrem mais violência ainda após usufruírem de seus serviços sexuais, afinal, muitos clientes transfóbicos as agridem. O Brasil é ao mesmo tempo o país que mais consome pornografia relacionada às pessoas trans e travestis e o país que mais mata essa população.

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Os homens transexuais passam pelo mesmo problema. Eles são mais invisíveis que as mulheres trans, pois também são atravessados por questões como o machismo, misoginia e transfobia. Isso sem falar nas pessoas não binárias e de gênero fluído. Essas pouco aparecem para contar suas histórias, tamanho o preconceito social.

Para aguentar tamanha invisibilidade e violências sociais, muitas pessoas trans e não binárias recorrem ao uso abusivo de drogas. Outros acabam desenvolvendo doenças psiquiátricas sérias que podem levá-las a automutilação e ao suicídio. Outras tantas vivem em condições horríveis, se “hormonizam” clandestinamente e são “escravizadas” por outras pessoas trans (cafetinagem) em troca de certa “proteção” e moradia.

Mudanças ainda não suficientes

É verdade que a situação das pessoas trans, travestis e não binárias vem mudando um pouquinho no nosso país. O nome social já pode ser usado em vários locais sociais, por exemplo. Mas isso ainda é só o começo. A transfobia ainda é recorrente.

É preciso investir em educação dessa população e da sociedade em geral. Algumas leis já protegem a população LGBTQIA+ em determinados aspectos. Entretanto, de maneira ampla, ainda não há qualificação educacional e profissional descente em relação população trans, muito menos acesso ao mercado formal de trabalho, assistência digna de saúde, respeito em órgãos públicos e outros segmentos da sociedade.

É preciso fazer urgentemente um trabalho gigantesco de educação de base nesse país que envolve: psicologia, sociologia, história, filosofia, sexualidade, inteligência emocional e respeito aos direitos humanos.

A prostituição precisa ser regulamentada como profissão. Ela precisa ser uma opção e não a única alternativa de trabalho para esse segmento social. Deve ter direitos e deveres assegurados, garantia de aposentadoria e preparo digno para a velhice. Infelizmente no Brasil, a expectativa de vida de uma pessoa trans é de apenas trinta e poucos anos.

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Psicólogo Pedro Sammarco - CRP 06/66066
Desde que me formei em psicologia em 2002 já iniciei meus atendimentos em consultório, onde estou até hoje. Logo em seguida fiz cursos na área clínica em gestalt-terapia e psicoterapia existencial. Dediquei-me também aos estudos de mestrado e doutorado voltados a psicologia social, sexualidade e envelhecimento. Além disso, sou plantonista voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV) desde 1998, prestando apoio emocional e psíquico. É importante mencionar que atuei cinco anos como psicólogo clínico no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP. Quando solicitado, palestro em escolas, ONGs, dentre outros. Também atuo como psicólogo voluntário em ONG que presta amparo ao LGBT idoso.

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