A Síndrome de Estocolmo e a ficção

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Estocolmo e histórias

A psicologia está em todo lugar, até na ficção. Veja os seus personagens favoritos no divã e entenda o que é a síndrome de Estocolmo.

Essa é uma das histórias mais conhecidas do mundo: uma bela moça, devota ao pai, troca a sua vida pela dele e escolhe viver aprisionada no castelo de uma horrenda fera. Ao ter salvado a vida do pai, a garota deu adeus à sua liberdade e às suas vontades. Porém, o convívio a fez perceber que existia beleza por trás das feições monstruosas de seu captor e, então, o amor surgiu entre eles.

Embora o conto nos ensine sobre não dar tanto valor às aparências pois a beleza vem de dentro, não podemos deixar de analisar os traços psicológicos de “A Bela e a Fera”. Bela é a refém da Fera, mas, no final, ela se apaixona por seu raptor. A situação descrita é chamada de  Síndrome de Estocolmo.

O que é Síndrome de Estocolmo?

A Síndrome de Estocolmo é caracterizada por um estado psicológico de intimidação, violência ou abuso em que a vítima é submetida por seu agressor, porém, ao invés de repulsa, ela cria simpatia ou até mesmo um laço emocional forte de amizade ou amor por ele.

O que acontece é que as vítimas criam um tipo de identificação com os agressores, de modo que entendem a situação em que estão e partilham de seus sentimentos. O que favorece esse cenário são as possíveis atitudes simpáticas e gestos gentis que o raptor pode ter com a vítima, e, essa, sob o estresse da situação iminente de perigo, passa a se sentir ligada a ele. A relação da Bela e a Fera nasceu justamente dessas gentilezas que o sequestrador nutria pela moça em apuros.

“A síndrome de Estocolmo foi descrita por Nils Bejerot, em 1973, como um estado psicológico particular, no qual a vítima demonstra indícios de lealdade e sentimento de gratidão para com seu sequestrador, de início, como mecanismo de defesa por medo de retaliação. Essa estratégia de sobrevivência pode levar o indivíduo a uma dependência do seu ‘protetor’ não se dando conta da submissão na qual se encontra (Montero, 1999)”, publicou a Revista de Psicologia Organizacional do Trabalho.

O nome da síndrome teve origem em um assalto real a um banco de Estocolmo, onde o assaltante, Jan-Erik “Janne” Olsson, munido de explosivos e uma metralhadora, entrou na filial do Kreditbanken, na praça de Norrmalmstorg, centro da capital sueca. O grupo formado pelo assaltante, um presidiário e  quatro funcionários do banco que se tornaram reféns, foi formado. A partir disso, uma relação pra lá de inusitada teve início. O sequestro durou seis dias e, nesse meio tempo, eles criaram laços afetivos e se distraíam com jogos de baralho para aliviar a tensão da situação. Assim, o grupo passou a se conhecer melhor e a compartilhar sentimentos.

Quer saber mais sobre a história da síndrome de Estocolmo? Clique aqui para ler o artigo.

O cinema espanhol também retratou a síndrome através do filme “Ata-me”. O diretor Pedro Almodóvar, conhecido por tratar de temas chocantes e inusitados, teve esse longa indicado e premiado diversas vezes em diferentes categorias, inclusive o de “Melhor Filme Espanhol” no Sant Jordi Awards, em 1991.

No filme, Ricky, vivido pelo astro Antonio Banderas, tem uma grande obsessão pela ex-atriz de filmes pornográficos Marina Osorio, interpretada por Victoria Abril. Ao sair do reformatório psiquiátrico, Ricky invade o apartamento de Marina e diz  que quer ser seu marido e o pai dos seus filhos. Decidido a ter o amor de sua musa, ele, então, resolve deixá-la amarrada na cama até ela aprender a amá-lo. No final, a síndrome aparece e Marina se apaixona pelo raptor.

O mundo das séries também se chocou quando Denver e Monica se apaixonaram. As personagens da série La Casa de Papel, da Netflix, vividas por Jaime Menéndez Lorente e Esther Acebo, ganharam o público quando, em meio ao assalto a Casa da Moeda, a funcionária do local, Monica, enfrenta os perigos que o sequestro gera e conta com o carinho e ajuda do sequestrador Denver, que, ao ver que a moça está grávida, passa a ser seu protetor.

A literatura e o cinema têm exemplos de sobra que retratam esse comportamento psicológico e Westeros não poderia ficar de fora. Game Of Thrones é uma das séries de maior sucesso dos últimos tempos e bateu recordes de audiência no mundo todo. Um dos personagens mais controversos é Theon Greyjoy, herdeiro das Ilhas de Ferro que, após a rebelião frustrada de seu pai, Balon Greyjoy, se torna refém da família Stark antes dos 10 anos de idade. Theon foi criado pelos Stark como se fosse membro da família, partilhando refeições, recebendo estudo e obtendo o respeito de todos. Theon se aproximou principalmente de Robb, o filho mais velho do chefe da família Stark e, juntos, lutaram muitas batalhas.

Além desse episódio claro de síndrome de Estocolmo, Theon também perpetuou o comportamento quando caiu nas garras do sádico Ramsay Bolton. Greyjoy sofreu violência, mutilação e terror psicológico, ao ponto de que sua própria personalidade foi transformada por Bolton e, Theon, virou Reek, ou Fedor. Arrasado pelas constantes ameaças, o instinto de sobrevivência fez com que o príncipe das Ilhas de Ferro passasse a adorar e respeitar seu captor, ignorando todas as oportunidades de fugir.

A psicologia está em todo lugar: seja em casos da vida real ou na ficção. Se houvesse um psicólogo para cada personagem, todos concordariam que Bela, Monica, Marina e Theon precisam de acompanhamento psicológico. Por não ser uma condição comprovada e diagnosticada, o uso de medicamentos no quadro da Síndrome de Estocolmo não é indicado. Portanto, a psicoterapia é uma grande aliada nesses casos, já que o psicólogo consegue identificar as origens do comportamento e utilizar técnicas para fazer com que o paciente compreenda melhor suas motivações e transforme esse comportamento. Esse é o tipo de terapia chamada “cognitivo-comportamental”.

Nas análises de Elizabeth L Sampson, pesquisadora do Departamento de Psiquiatria e Comportamento, da University College Medical School, em Londres, foi comprovado que o impacto que a situação de cativo causa nas vítimas é bastante profundo e dura quase toda a vida, se não for acompanhado. A personalidade é bastante influenciada e pode sofrer muitas influências negativas das experiências traumáticas e de confusão que a relação captor-refém possui.

Nenhum comportamento que ofereça qualquer tipo de situação abusiva deve ser alimentado, por mais que o instinto de sobrevivência que a síndrome de Estocolmo pode inferir. Procurar ajuda psicológica é fundamental para curar qualquer tipo de ferida que eventos traumáticos causaram.

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