Precisamos falar sobre saúde mental materna

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Saúde Mental Maternal

A saúde mental materna é fundamental no desenvolvimento afetivo entre mães e filhos

Mulher de negócios. Com reuniões e encontros importantes constantes. A agenda era lotada e a rotina corrida. Nem tinha tempo para lidar com o fato de que tinha sido diagnosticada com transtorno bipolar. Eram outras prioridades, como o sonho de ser mãe, por exemplo.

Inclusive, foram anos para aceitar o fato de que tinha um transtorno e mais alguns para procurar tratamento. Porém, pouco ela sabia que o seu maior desejo tinha relação com aquilo que não tomou cuidado por tanto tempo.

Christelle Maillet tornou-se mãe. A possibilidade para ela ter uma depressão pós-parto parecia distante e isso não passava pela sua cabeça. Bem, o tempo cobrou – afinal, pessoas com transtornos mentais possuem maior chance de desenvolver a doença.

A experiência, então, foi determinante para uma mudança de pensamento. Passou a aceitar a condição em que vivia e começou a se engajar no assunto. Começou a falar sobre saúde mental materna e gestação, além de frisar a importância de discutir com outras pessoas o tema. Ela foi ainda um passo além, mas isso é assunto para alguns parágrafos abaixo.

É preciso falar sobre saúde mental materna

Um estado de bem-estar no qual o indivíduo percebe suas próprias habilidades, pode lidar com o estresse normal da vida, pode trabalhar de maneira produtiva e é capaz de contribuir com sua comunidade. É assim que a Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde mental.

Tratar de saúde mental materna, então, é compreender esse bem-estar nas gestantes e puérperas, que irão lidar com a maternidade pelo resto de suas vidas. Aliás, dada a importância do assunto, foi instituído o Dia da Saúde Mental Materna (comemorado na primeira quarta-feira de Maio), que visa conscientizar sobre a importância de tratar sobre transtornos mentais ao falar da maternidade.

“É necessário estabelecer o Dia Mundial da Saúde Mental Materna por muitos motivos, bem mais do que acreditamos, já que a saúde mental materna afeta diretamente a mulher, mas também o bebê, o casal e a família”, comenta Isabel Echevarría, psicóloga perinatal e membro do grupo de trabalho de Psicologia da Ordem Oficial de Psicólogos de Madri.

A qualidade de contato dessas mulheres com o seu entorno e, principalmente, com os filhos reflete no nível de desenvolvimento pleno e fértil desse período. Portanto, alcançar o bem-estar é uma maneira de garantir um elo mais forte e saudável nesse novo relacionamento.

“Na realidade, a saúde mental das mães é um pilar necessário para o desenvolvimento e o crescimento saudável dos filhos. Apesar disso, na sociedade existe uma idealização da maternidade junto com um estigma da doença mental materna, associado com ser uma mãe ruim, o que chega a impedir as mulheres que se sentem angustiadas, incapazes, tristes, culpadas ou com medo de comentar isso com sua família ou profissionais de referência”, reflete Echevarría.

A importância do bem-estar materno

Apesar do tema não chamar muita a atenção no cotidiano, os dados sobre saúde mental materna representam a necessidade do diálogo. Afinal, 7 em 10 mulheres ocultam ou minimizam seus sintomas, segundo estimativas do World Maternal Mental Health Day (WMMHD).

Mundialmente, cerca de 10% das mulheres grávidas e 13% das mulheres que acabaram de se tornar mães sofrem de algum distúrbio mental, principalmente depressão, relata a OMS. Além disso, 1 em cada 5 mulheres experimentam algum tipo de transtorno perinatal de humor e ansiedade (PMAD), de acordo com o WMMHD.

Sendo assim, a falta de compreensão, apoio e tratamento a essas doenças mentais têm um impacto devastador nas mulheres afetadas e em seus parceiros e famílias.

De acordo com a OMS, “após o nascimento, a mãe com depressão sofre muito e pode deixar de comer, tomar banho ou cuidar adequadamente de outras maneiras. Isso pode aumentar os riscos de problemas de saúde. O risco de suicídio também é uma consideração e, em doenças psicóticas, o risco de infanticídio, embora raro, deve ser levado em consideração”.

Nesse mesmo sentido, é possível observar o risco que eventuais problemas de ordem mental da progenitora podem refletir nos bebês. Afinal, a relação entre mães e filhos é próxima e sentidas aos mínimos detalhes.

Além disso, “bebês muito jovens podem ser afetados e são altamente sensíveis ao meio ambiente e à qualidade dos cuidados, e provavelmente também serão afetados por mães com transtornos mentais. Doenças mentais prolongadas ou graves dificultam o apego mãe-bebê, amamentação e cuidados com o bebê”, relata a OMS.

Por conta disso, o artigo “Bem-estar e saúde mental materna” trata sobre a importância do bem-estar materno. Através dele, as mães são capazes de desenvolver capacidades passíveis de uma melhor qualidade de vida.

“Um importante aspecto da assistência materna é o apoio à gestante para capacidade de adquirir, desenvolver e manter a resiliência e estratégias de enfrentamento para promoção da saúde e bem-estar. Ser resiliente contribui para gestante desenvolver estratégias de enfrentamento, lidar com a ansiedade e estresse, reduzir o medo associado ao parto e ajuda-las a manter saúde e bem-estar ao longo da maternidade”, comenta o trabalho acadêmico.

Práticas da saúde mental materna

São diferentes iniciativas que surgem para tratar do bem-estar materno e cuidar melhor da saúde das mães. É possível observar inovações tecnológicas, iniciativas locais e movimentos globais (como o Dia Mundial da Saúde Mental Materna) para abordar o tema.

Nesse sentido, um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) criou o Motherly. O aplicativo é capaz de analisar e identificar o princípio de sintomas depressivos em gestantes e mães. O objetivo é evitar riscos à saúde e incentivar a procura de ajuda profissional.

Ainda, surgem iniciativas próprias de mães preocupadas com o assunto: como a Christelle. No caso, ela fundou o Mães com Humores, um canal de promoção da saúde mental materna através da divulgação de informação, curadoria de conteúdos e eventos.

A iniciativa também serve como um grupo de apoio para mães com transtornos do humor (depressão ou transtorno bipolar) trazendo acolhimento, suporte, troca de experiências e dicas.

Independentemente do tamanho do empreendimento, o conhecimento passado com essas experiências ajuda no desenvolvimento do debate. Ações e eventos apresentados são transformadores e multiplicadores. Basta mudar uma pessoa.

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