Suicídio: conheça mais sobre o comportamento suicida

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A morte é a única certeza do fim da existência humana e, mesmo assim, ainda é pouco discutida. O tabu impede a assimilação do ocorrido e preferimos evitar o assunto como uma maneira de fugir da dor e da tristeza. Entretanto, tal atitude atrapalha a forma como lidamos com o luto.

Falar sobre morte é falar sobre a vida. Trata-se de compreender a finitude da existência e exaltar o tempo presente. Não existe problema em debater sobre o tema, aliás, somente aumenta a percepção da realidade e ajuda a evitar o encerramento da vida por vontade própria.

O suicídio é o tipo de morte que rompe de forma violenta o vínculo do desenvolvimento humano. Ele foge da construção natural do morrer imposta pela sociedade, intensificando, assim, a dificuldade de aceitação e elaboração do luto dos sobreviventes.

A morte abreviada pelo suicídio rompe um padrão de silêncio. Portanto, é fundamental estabelecer um canal aberto para que se pense em prevenção. Nesse sentido, vamos abordar diversas esferas dessa seara no artigo.

O que é o comportamento suicida?

O comportamento suicida pode ser considerado como sendo o ato intencional de causar dano a si mesmo com o objetivo final de dar cabo da própria vida. Vale ressaltar que essa atitude ocorre no suicídio efetivamente consumado e nas tentativas.

Além disso, é importante entender que esse comportamento é multifatorial. Dessa forma, tudo englobado na existência do indivíduo reflete de alguma forma na atitude e pensamento existente. Sendo assim, é necessário analisar fatores ambientais, psicológicos, culturais, biológicos, religiosos e políticos quando falamos de suicídio.

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Um ponto essencial para destacar é que o objetivo do suicida nem sempre é a morte. Geralmente, a pessoa vê nessa atitude um caminho mais rápido para alcançar o seu desejo, que, muitas vezes, é o fim do sofrimento.

Nesse sentido, alguns autores até afirmam que o indivíduo suicida não deseja realmente morrer. Isto é, o principal objetivo é mesmo eliminar a dor sentida e, para isso, busca um método que o leva à morte.

Dados sobre o suicídio

Vale ressaltar que o comportamento suicida ainda é subnotificado, principalmente por conta de o tema ser um tabu. Isto é, várias informações são imprecisas, mas, mesmo assim, podemos nos atentar para alguns dados encontrados.

Um estudo feito com a população brasileira detectou que existe um aumento expressivo de suicídio em todos os grupos etários. Entretanto, as mulheres observaram taxas são mais altas em planejamento e tentativas de suicídio, enquanto que no sexo masculino foram encontradas as maiores taxas do ato consumado.

Além disso, pesquisas mais recentes apontam que de 30 a 40% das pessoas que fazem uma tentativa de suicídio repetem esse comportamento num período de 6 meses a um ano, isso se não forem tratadas ou percebidas.

Ainda, o que se tem percebido pelas notificações é que o comportamento suicida é mais frequente em jovens abaixo dos 25 anos. Ademais, a taxa é mais elevada nas mulheres em comparação com os homens, numa proporção de duas ou três vezes.

As consequências do ato

O suicídio não afeta somente o indivíduo que tira a própria vida, mas todas as pessoas que estão à sua volta, especialmente a família. Dessa forma, para os mais próximos da pessoa que cometeu o ato, a vida fica radicalmente transformada.

Sendo assim, a partir do momento que isso faz parte da história de alguém, essa pessoa tem sua vida irremediavelmente marcada. A morte por suicídio é um caso no qual a perda é socialmente não comentada, o que agrava ainda mais o quadro. Os principais sentimentos dos familiares do suicida são o medo, a culpa, a raiva, a tristeza, a ansiedade, a vergonha e a saudade.

As pessoas mais próximas do suicida passam pelo transtorno pós-traumático, pois vivenciam o luto da perda e o trauma provocado pelo ato. A morte de um ente querido por suicídio, geralmente, traz conflitos, muitas vezes encobertos, pois a estigmatização acrescenta um processo de estresse ao luto.

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Dessa forma, as pessoas precisam lidar com o preconceito, a vergonha e a desconfiança dos estereótipos criados. A assimilação de todos esses componentes não é fácil, principalmente, pelas circunstâncias da morte. O suicídio, geralmente, ocorre de forma trágica, o que torna a vivência do luto e do enfrentamento algo extremamente difícil de ser realizado.

Seja por vergonha ou pela restrição social devida à representação negativa do suicídio, as famílias mostram um sentimento de culpa por não terem conseguido evitar tal ato. Além disso, é possível observar sentimentos de angústia e ansiedade por não compreenderem tal atitude.

Sendo assim, surgem diferentes reações quanto ao ocorrido. Muitos ficam com uma sensação de desamparo pela perda, enquanto outros são tomados pela revolta, já que não admitem que o suicida teria motivos para cometê-lo.

Em decorrência dessas emoções, os familiares podem passar por diversos problemas de saúde física e mental. É comum observar nessas pessoas a depressão, a negação, o isolamento, problemas de angústia, dificuldades de estabelecer novas relações, sensação de desamparo, queda na produtividade, desenvolvimento de transtornos mentais, desinvestimento na própria vida e aumento do uso de álcool e outras drogas.

Fatores de risco e sinais do suicídio

Clinicamente, é necessário compreender o sofrimento para entender como determinada pessoa chega ao ato suicida. No entanto, temos que prestar muita atenção para que o suicídio não se efetive, uma vez que o comportamento suicida pode ser evitado.

Dessa forma, a pessoa que pretende cometer o suicídio apresenta uma classe de fenômenos antes do ato. Então, é fundamental prestar atenção nos sinais que essas pessoas apresentam para conseguir prevenir o desfecho da história.

Sendo assim, vale ressaltar os sinais e fatores de risco presentes na vida de uma pessoa que influencia na tomada de decisão rumo ao suicídio. Confira a seguir os sintomas do comportamento suicida:

  • Histórico de tentativas anteriores;
  • Depressão;
  • Transtornos de personalidade;
  • Doenças mentais;
  • Isolamento social;
  • Frustração da vida moderna;
  • Relacionamentos afetivos abusivos ou fracassados;
  • Histórias de tentativa ou suicídio na família;
  • Dependência química e medicamentos psicoativos;
  • Doenças físicas crônicas em estágio avançado.

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Identificar esses sinais pode ser o fator determinante para a ajuda dessa pessoa. Entretanto, também é imprescindível tomar cuidado com outros aspectos subjacentes da questão, principalmente, se houver qualquer suspeita.

Nesse sentido, quando nos deparamos com uma tentativa de suicídio é muito importante sabermos o método utilizado pela pessoa e ter rápido acesso aos serviços de emergência. Afinal, todas essas questões somadas com a vulnerabilidade da vítima, interferem no resultado final, independente da intenção ou não de morrer.

Um problema de saúde pública

A cada 40 segundos ocorre uma morte por suicídio. A cada caso de suicídio, estima-se que há 20 tentativas de suicídio. As informações da Organização Mundial da Saúde (OMS) assustam e refletem o grave problema de saúde pública mundial.

No caso do Brasil, o país registra uma morte a cada 45 minutos, além de ocupar o décimo primeiro lugar no ranking dos países que apresentam mais casos de comportamento suicida. Um cenário preocupante.

A falta de divulgação de informações sobre o tema do suicídio é um dos principais fatores que alavancam esses números. Entretanto, isso evidência uma falta de capilaridade estrutural na sociedade para lidar com a questão.

Dessa forma, é possível observar diversas lacunas no sistema. Não existem grupos de apoio suficientes, falta capacitação para atender tais casos, existe uma ausência de programas socioeducativos em escolas e universidades, além de possuir pouco investimento na produção de pesquisas sobre a temática. Tal negligência aumenta o número de casos e reflete o descaso da realidade.

Nesse sentido, é fundamental instituir políticas públicas de saúde, contemplando a prevenção e o tratamento do comportamento suicida. Essas ações são cruciais para crianças e jovens, mas também deve atingir pais e comunicadas, como um exercício de reflexão sobre a própria vida.

Sendo assim, é necessário realizar ações desenvolvidas tanto em escolas, como nos ambientes de trabalho. A utilização de atividades mais incisivas ajuda no desenvolvimento de um tema tão complexo como esse.

Como prevenir o comportamento suicida

Bem, não existe uma estratégia única de prevenção do suicídio. Dessa forma, é mais interessante apostar em intervenções multidisciplinares e multissetoriais para combater esse problema. Sendo assim, elenquei algumas formas de prevenção necessárias e que devem ser observadas quando ocorrer o comportamento suicida:

  • Estabelecer um diagnóstico efetivo do que motiva ou leva a esse tipo de comportamento e atitude: é importante identificar e realizar o tratamento de transtornos psiquiátricos e suas patologias, incluindo a depressão no idoso e nos dependentes químicos;
  • Atendimento individual: é importante uma abordagem sistêmica e multidisciplinar, que inclua um vínculo solidário com o paciente. O objetivo é aumentar sua continuidade no tratamento e incluir intervenções psicossociais;
  • Atendimento psicoterápico ágil dos sobreviventes e familiares: o tratamento deve ser realizado por profissionais gabaritados para esse tipo de atendimento. Deve-se dar ênfase no fortalecimento e ampliação da rede de apoio com encaminhamentos de qualidade, além de utilizar uma inserção multidisciplinar;
  • Redução dos métodos letais (estratégia das mais efetivas): essa estratégia visa reduzir as tentativas em comportamento por impulso e gravidade das lesões (armas de fogo, facas, cordas, medicamentos, além de removedores, álcool, produtos de limpeza e produtos agrotóxicos);
  • Acesso e melhoria dos serviços de emergência e pré-hospitalar: vale ressaltar o conhecimento, principalmente, das intoxicações exógenas, que representam 82% das tentativas de suicídio.

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É válido lembrar que o compromisso maior é cuidar, escutar e acolher o sujeito que sofre com isso. Deve-se utilizar uma atitude e postura de solidariedade e ética, afastando todos os preconceitos que geram estigmas e dificultam o tratamento.

O comportamento suicida, apesar de ser um ato individual, é um processo multidimensional, que resulta na integração complexa de fatores. Então, mais do que nunca, devemos atuar como uma sociedade em que privilegia a vida.

Nesse sentido, é necessário o desenvolvimento de políticas públicas efetivas e que ajudem na desmistificação do tabu. Precisamos diluir o preconceito e buscar tratar as pessoas que apresentem essa tendência.

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Psicóloga Sonia Pittigliani - CRP 06/14188
Psicóloga formada em 1982, me especializei em Psicoterapia Breve e Psicologia Hospitalar, tendo feito mestrado em Psicologia da Saúde. Toda minha vida profissional foi fundamentada numa postura ética humana, tendo trabalhado como psicoterapeuta (analítica dinâmica) em meu consultório, psicologia oncológica e psicologia hospitalar (UTI de adultos - politrauma, cardiologia e neurologia), sala de Emergência (atendendo tentativas de suicídio por intoxicação e dependência química) e também atuado como professora de Psicologia Educacional, em escolas estaduais no início de carreira, nas Faculdades Oswaldo Cruz (curso de especialização em Oncologia) e na UNICID (matéria de toxicologia clínica na Faculdade de Medicina e Psicologia Forense na Faculdade de Direito). No hospital fui Chefe da clínica de Psicologia Hospitalar (por três anos) e na clínica de oncologia coordenei a equipe multiprofissional. Atualmente atendo clinicamente, e desenvolvo um trabalho de mentoria. Agende uma consulta comigo aqui: https://www.telavita.com.br/app/psicologia-online/sonia-maria-campos-pittigliani

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