A Síndrome de Tourette: Conheça esse “transtorno desconcertante”

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síndrome de Tourette

Os incontroláveis tiques deixam tanto os pacientes com síndrome de Tourette, quanto quem os cerca, numa verdadeira saia justa.

Phoebe Lichten sonha com o País das Maravilhas. A fantasia e a imaginação sempre a acompanharam, afinal, a vida real pode ser um verdadeiro fardo para crianças como ela. Zombaria, provocações e rejeição são partes de seu dia a dia como portadora da Síndrome de Tourete, um distúrbio neuropsiquiátrico caracterizado por tiques múltiplos, motores ou vocais, que a faz parecer mal educada e estranha aos olhos dos outros. Embora Phoebe seja personagem do filme “A menina no País das Maravilhas” ( Phoebe in Wonderland), a síndrome é real e torna a vida de muitas crianças bem difícil.

Na grande maioria dos casos, a síndrome aparece na infância, entre 3 a 9 anos, e ocorre cerca de 3 a 4 vezes mais nos meninos do que nas meninas. “A síndrome de Tourette pode ser uma condição crônica com sintomas que duram por toda a vida, porém a maioria dos pacientes experienciam os piores sinais na pré-adolescência, e podem obter grande melhora nos anos seguintes”, informa o National Institute of Neurological Disorders and Stroke.

De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), uma em cada 360 crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos de idade recebe o diagnóstico de síndrome de Tourette. A maioria dos casos é classificada como leve ou moderada, informa o Huffpost Brasil.

A TSA (Associação da Síndrome de Tourette) define o problema  como “um transtorno desconcertante”, isso por que a quantidade de tiques e movimentos involuntários podem fazer com que o paciente sinta uma necessidade incontrolável de falar algo que não é socialmente aceito ou que vai contra as normas da educação. Além disso, os tiques motores também podem ofender alguém que não tem conhecimento do problema. É essencial lembrar que esses tiques são involuntários, ou seja, a criança não tem controle sobre eles e não os faz para chamar atenção.

O que são Tiques?

De acordo com o DSM-IV, tiques são movimentos involuntários, súbitos, rápidos, recorrentes, não rítmicos e estereotipados. Aparecem também na forma de vocalizações (barulhos). Ocorrem de forma contínua ou em acessos. “Às vezes são precedidos por uma sensação desconfortável, chamada de sensação premonitória e frequentemente seguidos por uma sensação de alívio”, explica a ASTOC (Associação Brasileira de Síndrome de Tourette, Tiques e Transtorno Obsessivo Compulsivo)

Estresse, fadiga, ansiedade e excitação podem ser gatilhos para os tiques darem as caras. “Os tiques complexos podem organizar-se e serem ritualizados, o que os torna, às vezes, difíceis de diferenciar das compulsões, que seriam precedidas de fenômenos cognitivos (idéias) e acompanhados de sinais autonômicos (ansiedade, palpitações, tremores, sudorese), enquanto que os tiques são geralmente precedidos de fenômenos sensoriais (sensações premonitórias) sendo seguidos de alívio”, aponta a ASTOC.

Esses tiques podem contemplar tanto os movimentos mais simples, como piscar repetidamente, quanto os mais complexos e desconcertantes, como a coprolalia, emissão involuntária de palavras obscenas (palavrões) e a copropraxia, gestos obscenos involuntários. Além desses tipos, também existem:

  • Ecolalia, repetição de palavras ouvidas pelo paciente;
  • Ecopraxia, repetição de gestos vistos pelo paciente;
  • Palilalia, repetição das próprias palavras;

A intensidade dos tiques varia entre os quase imperceptíveis, como um leve levantar de ombros, até tiques mais graves, como lamber mãos, dedos ou objetos. Estima-se que um terço dos pacientes apresente remissão completa ao final da adolescência, ainda que existam casos em que a criança leva boa parte dos tiques, ainda que camuflados, para a vida adulta. Alguns autores observaram que mais de 40% dos pacientes com a ST apresentavam TOC, e essa pode ser uma das representações da perpetuação da SI na vida adulta.  

É importante ressaltar que falar palavrões não é o único e principal sintoma da doença. É muito comum que a mídia e a ficção usem apenas esse sintoma como o mais latente, o que pode confundir muitos pais na hora do diagnóstico. Esterotipar a doença dificulta na compreensão dela e da busca por um tratamento. “Quando meu filho recebeu o diagnóstico de Tourette, a primeira coisa que falei foi: ‘Mas ele não fica xingando’”, disse ao Huffington Post,Susan Breakie, líder da TSA em Delaware e mãe de um filho que tem a síndrome. “Era assim que eu via a síndrome, por causa do que tinha visto no cinema e na TV.”

“Você pode conhecer uma pessoa com ST e depois conhecer uma segunda pessoa com a síndrome que é completamente diferente da primeira”, falou Michelle Guyton, membro do Conselho de Diretores da TSA Grande Washington e mãe de um menino com ST, em entrevista ao Huffington Post. “Para entender a síndrome de Tourette, a melhor coisa é passar tempo com alguém que tem a síndrome.”

Cerca de 86% de pacientes com ST apresentam comorbidade, ou seja, a presença de outro problema de saúde mental, comportamental ou de desenvolvimento simultaneamente. Um exemplo de comorbidade nesse caso é a presença do TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) (63%), ansiedade (49%) e TOC (mais de um terço), informa o CDC.  

Sintomas da Síndrome de Tourette

Segundo o Dr. Drauzio Varella, “em 80% dos casos, os tiques motores são a manifestação inicial da síndrome. Eles incluem piscar, franzir a testa, contrair os músculos da face, balançar a cabeça, contrair em trancos os músculos abdominais ou outros grupos musculares, além de movimentos mais complexos que parecem propositais, como tocar ou bater nos objetos próximos”. Além desse sianl que é o mais marcante, outros sintomas também se manifestam:

  • Agressividade;
  • comportamento compulsivo;
  • hiperatividade;
  • imitação involuntária dos movimentos de outra pessoa;
  • impulsividade;
  • movimentos repetitivos;
  • aumento da atividade muscular;
  • ansiedade;
  • dificuldade de aprendizagem;
  • gagueira, pigarrear com frequência, piscar os olhos repetidamente, resposta exagerada ao receber um susto, tosse ou tremores nas pálpebras

Tratamento da Síndrome de Tourette

A síndrome de Tourette não tem cura, mas pode ser controlada. Uma grande aliada do tratamento é a terapia cognitivo-comportamental ou, para os íntimos, TCC, um dos tipos de terapia mais famosos e mais embasados por evidências científicas. Nela, o terapeuta  conduz o paciente a uma verdadeira jornada de transformação de pensamento frente aos problemas e às emoções que eles surtem.

O Instituto de Terapia Cognitiva do Brasil explica, brevemente, a terapia cognitivo-comportamental: “inicialmente, objetiva devolver ao paciente a flexibilidade cognitiva, através da intervenção sobre as suas cognições, a fim de promover mudanças nas emoções e comportamentos que as acompanham. Ao longo do processo terapêutico, no entanto, atua diretamente sobre o sistema de esquemas e crenças do paciente a fim de promover sua reestruturação. Em paralelo à reestruturação cognitiva, o terapeuta cognitivo utiliza ainda uma abordagem de resolução de problemas”.

No caso da síndrome de Tourette, os psicólogos conduzem os pacientes em um treinamento e monitoração das sensações premonitórias e dos tiques. Medicamentos antipsicóticos também podem se prescritos por médicos especialistas com a finalidade de reduzir a intensidade dos tiques.

A síndrome de Tourette pode causar marcas profundas nas crianças no que se refere à aceitação social, bullying e autoestima baixa. A personagem do filme que citamos lá no início do artigo, Phoebe, tinha o sonho de participar da peça teatral de sua escola, porém, por conta dos tiques, o sonho pareceu mais distante do que ela poderia imaginar. É vital que o acompanhamento psicológico seja presente na vida da criança cujo sintomas acabaram de começar ou que já foram diagnosticadas. Assim, o tratamento pode fazer com que menos pacientes sofram dos tiques e do preconceito.



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