Corpo e subjetividade

corpo

O fato de pensar nos afirma como seres pensantes, mas não ainda como indivíduos dotados de corpo. “Penso, logo existo”. A frase de Descartes reflete que somente o pensamento não pode deixar de existir. Sendo assim, tudo é colocado em dúvida, até mesmo a existência do corpo.

Na plano das idéias claras e distintas, o filósofo separa claramente duas substâncias: alma e corpo. A essência da alma é pensar, enquanto que a do corpo é ser um objeto no espaço. No entanto, o pensamento (alma) está preso a esse fragmento de extensão (corpo).

Dessa forma, é possível observar que a alma age sobre o corpo e este age sobre ela. Para Descartes, o ponto de união da alma ao corpo é a glândula pineal, isto é, a epífise. Então, compreender essa dualidade permite enxergar os limites de cada agente.

A dualidade entre corpo e mente

De forma bem demarcada, existe uma divergência de correntes dentro da filosofia, na qual uma privilegia o corpo e a outra foca na mente. Explicitam-se os dualismos: idealismo e materialismo; racionalismo e empirismo; subjetividade e engrenagem; pensamento e máquina; consciência e físico; espírito e matéria; cógito e objetividade; interioridade e exterioridade.

Entretanto, para o filósofo holandês, Baruch Spinoza, no homem não há senão uma entidade, vista interiormente como mente e exteriormente como matéria (corpo). Sendo assim, o que existe na realidade é uma mistura inseparável.

Então, a mente e o corpo não agem um sobre o outro, porque não há outro. O processo “mental” e interior corresponde em cada estágio ao processo “material” e externo. A ordem e conexão das ideias é a mesma que a ordem e conexão das coisas.

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O físico não pode determinar que a mente pense e nem a mente pode determinar que o corpo fique em movimento ou em repouso. A decisão da mente e a determinação do corpo são uma só coisa. Isso ocorre, pois não existem dois processos, nem duas entidades. Não há senão um processo visto interiormente como pensamento e exteriormente como movimento.

Corroborando com as ideias de Spinoza, o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty defendia que não há separação e sim coexistência. Somos unidade única, duplicidade una e unidade ambígua. O conceito de experiência ainda define que somos consciência entre aquilo que foi denominado de espírito e o que foi denominado de matéria.

Para Merleau-Ponty, o corpo não é um objeto. Nesse sentido, para ele não importa se estamos tratando do nosso próprio corpo ou de alguém. Na verdade, o único modo de conhecê-lo é vivenciando seu próprio drama e aquilo que lhe atravessa confundindo-se com ele.

A reflexão sobre o corpo

No plano pré-reflexivo, somos vivência. No plano perceptivo, somos experiência. Ora nos percebemos mais corpo, ora nos percebemos mais mente (conhecida também na filosofia como alma ou espírito).

Nosso corpo nos situa e é uma forma de ser e estar no mundo. Percebemos a tudo e a todos. A cultura nos constitui, assim como a constituímos. Nosso corpo nos compõe, assim como, subjetivamente, compomos nosso corpo. Não temos como nos separar dele.

Através do corpo alcançamos o mundo. Somos o nosso corpo no mundo. Nosso corpo é condição necessária para percebermos nosso campo de presença no mundo. O corpo nos situa, limita e demarca, tornando possível a relação com outros corpos. A subjetividade está tanto no corpo, como na própria mente. Ou seja, somos nosso corpo com os outros corpos no mundo.

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Sendo assim, percebemos nosso corpo não apenas como um objeto localizado no espaço. Ele é a condição necessária para perceber, sendo esse o campo de presença no mundo. Ele nos situa, pois nos relaciona com o espaço, tempo e outros seres. Ao mesmo tempo nos limita. Tal limite demarca, tornando possível a relação com o outro. Através dele desenvolvemos posturas.

Para Merleau-Ponty, a história de cada um que nos constitui. Só somos quem somos, pois fomos o que fomos. O tempo é uma dimensão do nosso ser. O tempo está no nosso corpo. Ele nos situa em relação ao passado pela memória, pelo presente por meio da vivência e pelo futuro através da imaginação.

Dessa forma, para o autor, o que nos limita nos faz compreender o outro. Ou seja, ser eu me possibilita compreender o não-eu. Além disso, ser finito nos faz aspirar ao eterno. Afinal, assumir que morremos nos permite viver melhor.

Identidade histórica sobre o corpo

A história da criação dos corpos e identidades sociais, conforme já vimos, está ligada a produção de subjetividades. Dessa forma, as relações entre corpo e subjetividade são maiores do que parece, pois alcança formas como nos compreendemos e somos levados a ver o outro.

Nesse sentido, os corpos buscam adequações aos padrões de identidade socialmente aceitas. Tal enquadramento justificou as mais variadas formas de controle e disciplina que o corpo sofreu por mais de dois séculos.

Para tal, é interessante observar a atuação da indústria da moda. O tamanho dos vestuários vem diminuindo desde o século XX e, além disso, vemos gradativamente peças menores à venda, tanto para os homens, mas, principalmente, para as mulheres.

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Sendo assim, os corpos vão sendo cada vez mais expostos conforme os anos desse século avançam. A partir da década de 1980, os corpos já estavam bem amostra e a famosa “geração saúde” crescia expressivamente em todas as classes sociais.

Desde então, o culto ao físico tem tido o objetivo de corporificar “identidades” pautadas em modelos inalcançáveis, em que cada um se torna individualmente responsável pelo corpo que tem. Ou seja, quanto mais “apropriado”, maior será a sua capacidade de autodisciplina e cuidado.

A disciplina corporal cria corpos padronizados e subjetividades controladas. Na atualidade, quem não tem um físico bronzeado, malhado, magro, lipoaspirado e siliconado é visto como alguém que fracassou, inclusive, em outras dimensões da vida, como finanças, profissão, família, vida sentimental, amizades, dentre outras.

Consequências psicológicas

As indústrias relacionadas ao emagrecimento, principalmente as que pertencem ao ramo da saúde e moda, movimentam cifras bilionárias no mundo inteiro em nome da “saúde e estética física ideal”.

Isto talvez explique o aumento dos seguintes transtornos psiquiátricos, além de outros relacionados como depressão e ansiedade:

  • Anorexia: perceber o corpo menos magro do que ele parece na realidade. O sujeito se torna obcecado por dietas para emagrecer, que, muitas vezes, são levadas ao extremo do exagero, com o objetivo de ter um modelo idealmente magro;
  • Bulimia: ingestão excessiva de alimento em um curto espaço de tempo, levando posteriormente ao vômito induzido;
  • Vigorexia: perceber o corpo menos definido do que na realidade. Isso gera obsessão e vício por práticas de exercícios físicos, com o objetivo de ter o físico idealmente musculoso e definido;
  • Ortorexia: preocupação obsessiva por ingestão de alimentos considerados nutritivamente saudáveis, balanceados e naturais.

Todos os indivíduos são capturados por mais essa política do biopoder. Ela gerencia corpos e vidas em nome do bem estar e da “qualidade de vida”. Dessa forma, é fundamental compreender o que esse contexto significa e procurar ajuda psicológica quando for preciso.

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